Forma, reforma, disforma, transforma


“se nos cansamos das medidas fixas para os versos, da métrica regular e, por fim, também da rima, temos que encontrar alguma outra coisa para conferir ao poema o efeito de um todo.” Öyvind Fahlströmii

        A poesia concreta nos anos 1950 desafiava as definições de linguagem e imagem, desbravando um campo híbrido entre o visual e a palavra. A espacialidade do papel era infiltrada por jogos semânticos e alegorias figurativas, e os poetas experimentavam com o abandono do verso, testando os limites gráficos e simbólicos do discurso. Analogamente, a nova série de Roberta Tassinari também resiste aos limites impostos pelos gêneros e suportes tradicionais da história da arte. Suas criações habitam as margens dos gêneros e estilos.


    A artista tem seu ateliê como uma cozinha, ou um laboratório improvisado: cortando e recombinando embalagens plásticas diversas, monta moldes retangulares e aquadradados que servem para formatar o cimento, componente do concreto, essencial à construção civil e ordinariamente presente nos ambientes urbanos; é usado como estrutura, suporte e carne do trabalho. A substância ganha nova função, é submetida a experimentos, improvisos e articula novos significados. A mistura de água e cimento para as bases gera calor e como não há uma receita exata, as proporções não se repetem com precisão, o que implica em lidar com as imprevisibilidades da matéria a cada nova preparação. Os objetos são resultado de uma repetição mecânica que gera a cada investida resultados distintos que, ao mesmo tempo, seguem uma lógica interna própria, serial.

 

    Com os blocos de cimento endurecidos, Tassinari decide incorporar (ou não) cada efeito inesperado e reação adversa, como bolhas, quebras, desníveis e incontáveis outras particularidades materiais das peças, que absorvem a umidade do ar, respondem à temperatura ambiente e impregnam-se da textura dos moldes. A partir desse resultado, cria composições cromáticas com encáustica, tinta polivinílica, resina, folha de ouro, entre outros, expandindo seu vocabulário plástico. A transparência é elemento essencial nessa adição de cor e massa sobre as placas, que ora absorvem o pigmento, ora o sustentam como volume sólido ou translúcido, em alternações de contaminação e acumulação pura. As folhas de ouro deslocam-se do contexto de valor e raridade para recobrir as superfícies de um material comum, prosaico, em associações inusitadas.

    Assim como na poesia concreta, não há normas fixas para desenvolver o trabalho, não há métrica pré-definida que o estruture, não há necessidade de rima ou ritmo precisos. Algumas tentativas frustradas intermeiam-se com soluções potentes que surpreendem a própria artista. Ela aventura-se de forma intuitiva nessas massas e misturas, com mais ou menos êxito a cada nova experiência.

    Não há projeto prévio nem traçado ou esquema, mas uma sensibilidade imediata com a materialidade e a força dos ingredientes, que assim como em uma cozinha espontânea, podem tanto transformar-se em produtos saborosos, bem resolvidos, articulados, como desandar em harmonizações estranhas e insossas.


    As peças que sobrevivem ao embate da artista com seus materiais desviam-se das definições categóricas estanques da arte, como pintura, escultura e objeto; abstração, paisagem e concreção geométrica. Não se encaixam na estrita ordem da pintura – não são unilaterais e seu volume e corpulência evocam a tradição da escultura. Também não são rigorosamente escultóricas, uma vez que não resultam da literal adição ou subtração de matéria, como quando se lida com argila ou mármore. São inerentemente tridimensionais, mas há sempre um dos lados ao qual não temos acesso, o fundo, e os trabalhos descansam contra a parede assim como qualquer pintura. No entanto, como nos objetos-ativos de Willys de Castroiii, as laterais informam tanto quanto os planos frontais, são carregadas de dimensão, concretude e cor. Essas pinturas-objetos não funcionam apenas quando encaradas de frente, vistas da esquerda para a direita ou de cima para baixo – a leitura das obras é livre e o olhar pode percorrer as cinco superfícies para relacionar-se com as composições.


    Estas obras não tem título, não há narrativa subjacente ou metafórica; há, sim, uma relação metonímica entre os elementos empregados, os ingredientes que relacionam-se contiguamente, material e conceitualmente, conteúdo e forma indissociáveis. Como um som que nunca pode ser repetido, ou um pequeno haicai, Roberta Tassinari estrutura peças únicas e seriais, constrói poesia com a matéria, transforma os materiais e é transformada por eles.

i Trecho de poema de José Lino Grünewald, um dos integrantes do grupo Noigandres, pioneiro na poesia concreta no Brasil.
ii Artista sueco nascido no Brasil, Fahlström foi um dos primeiros artistas a escrever em defesa da poesia concreta [Manifesto para a poesia concreta, 1953].
iii Artista brasileiro central em movimentos de vanguarda como o Concretismo e o Neoconcretismo.

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