De que trata esta obra com a qual Roberta Tassinari ocupa um dos espaços do Museu Histórico de Santa Catarina, em Florianópolis, nesta exposição que ela chama de Croma? O título, em princípio, nos remete a uma gramática própria da pintura, haja vista ser este um termo associado não só à noção de pureza cromática, como, também, à da ausência do branco na diluição de uma cor para a obtenção de um meio tom.

Entre quatro pilares de ferro do espaço expositivo do Museu Histórico, são dispostos algumas dezenas de bóias infláveis – nas cores rosa neon, rosa fosco e rosa translúcido – em diferentes escalas que, suspensas por fios de nylon, espalham-se compondo o ambiente. Trata-se de um trabalho eminentemente retiniano e, inerentes a ele, espacialidade e temporalidade são os aspectos que mais facilmente podem ser identificados. Conforme variam a localização do espectador e a luminosidade do ambiente, as bóias – que poderiam ser vistas como massas de cor – vão assumindo novas configurações e, na medida em que se agrupam em diferentes sobreposições ou justaposições, vão compondo infinitas combinações. Estruturado pelas bóias que Roberta cuidadosamente distribui, este arranjo espacial pode ser visto como uma pintura espacial caleidoscópica (ou uma instalação como preferem alguns) que está sempre por fazer-se. Inconclusa diante das tantas variáveis que regem sua lógica interna constitui-setrabalho que nunca se esgota, sempre se renovando a cada situação.

 

Neste trabalho, a artista/pesquisadora vale-se do uso especial e muito particular daquelas lições pictóricas aprendidas já faz algum tempo. Segura dos procedimentos adotados, não só pretende desdobrar aspectos referentes à cor, luz, transparência, veladura, e todos aqueles aspectos próprios do discurso da pintura, como, também, descontextualizar muitas das suas operações básicas.

Fica-nos claro que, ao ousar tal gesto de ruptura, de superação, de insurgência mesmo, consegue ir muito mais além, ao ponto de transpor todos aqueles limites e fronteiras mais arcaicos que ainda insistem e persistem na lógica do confinamento que nos é imposta pela via das categorias tradicionais da arte.

De certo é que não haveria empecilho algum em pensarmos nesta recente proposição de Roberta como algo pertencente ao campo da pintura, entretanto, ao fazê-lo, deve-se ter em mente tratar-se de um trabalho que procura expandir e dilatar conceitos. A atualidade desta obra consiste, justamente, do uso que faz de outros eixos além daqueles já demasiadamente saturados da superfície plana cartesiana e de sua exigente necessidade de um espaço expositivo ideal; contrário a isto, se utiliza de variáveis outras como aquelas que, há algum tempo, já foram requisitadas pela arte contemporânea (leiam-se aí as relações espaço/tempo, público/obra, entre outras), todas elas facilmente identificáveis, ou, melhor ainda, os elementos constitutivos que a complementam.

Então, a proposta pictórica que Roberta Tassinari nos apresenta pode ser entendida tal qual um dispositivo instaurador de um jogo visual que objetiva a desestabilização de supostas verdades e valores que, todavia, permeiam o discurso da pintura. Ao promover esta situação de esgarçamento de fronteiras e limites, este trabalho revela-nos, não só a potência que o caracteriza, como, também, a relevância com que está impregnado.

Florianópolis/SC, março de 2010.

Marcelo Pereira Seixas

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